Alive Inside: Um filme pra chorar e sorrir e mexer a bunda do sofá

De acordo com o IBGE em 2016, 82 anos é a maior média de expectativa de vida para as mulheres brasileiras (diz respeito às senhoras que vivem em SC, me apropriei porque é aqui do lado). Em 2017 completarei 41 anos e isso me coloca num lugar meio desconfortável, que é o ponto médio dessa curva e, portanto, aquele momento que cada novo dia significa mais passado do que futuro. Sei que isso e estatística e que pode furar e, no mais, eu vim pra esse mundo pra confusionar e fugir da curva. Anyhow, a proximidade desse marco somada ao tanto que tenho pensado nos últimos tempos me faz muito metafísica e questionadora.

Mais passado do que futuro: não sei lidar.

Entre viver, rir muito, chorar muito e elucubrar demais, no último findi achei que já era tempo de desempoeirar a lista de desejados da Netflix e pinçar um título. Poderia ter assistido a dois, tendo em vista o tempo que passei escolhendo, mas isso não vem ao caso. Cliquei no ALIVE INSIDE e abri as portas da percepção pra uma experiência muito valiosa.

A produção é simples e a ideia do Dan, que é o assistente social cuja experiência originou o roteiro do documentário, é muito alcançável no sentido de que não é uma invenção. Ao contrário, é uma coisa que gente ordinária (tipos TODO MUNDO) faz sempre e que, talvez em virtude do sempre, não percebe o poder que a coisa tem. O trabalho dele é introduzir num asilo norte-americano uma terapia relacionada à música que consiste, basicamente, em colocar canções significativas num iPod Shuffle, botar os fones na pessoa, dar play e ficar perplexo com o que acontece.

Marylou está a minha personagem preferida, pode ser que amanhã eu escolha outro.

Marylou está a minha personagem preferida, pode ser que amanhã eu escolha outra.

“Canções significativas” simplifica um pouco a coisa. As músicas nos iPods na verdade têm relação com o que se sabe sobre a vida dos pacientes, que são pessoas com diferentes níveis de demência ou Alzheimer. Alguns não se comunicam, outros não recebem visitas, então é preciso juntar umas poucas referências e usá-las para levantar um compilado de canções que façam sentido dentro daquele contexto (que podem ser apontadas pela faixa etária da pessoa, profissão, estado civil, religião, etc).

Bicho, o que se passa em seguida ao PLAY nos apetrechos é uma coisa que não pode ser verbalizada. É uma arrebatação muito poderosa e realmente transformadora na vida dos personagens. As pessoas são invadidas por uma onda de vida instantânea, tudo que é possível ver no corpo delas reage de forma automática ao que sai dos fones. Minha dica é prestar atenção nos olhos da galera. #chorei


O trailer fala mais do que meu textão.

Além do empirismo aplicado que mostra resultados muito lindos do experimento, o filme traz uma porção de entrevistas com cientistas, médicos, músicos e outros profissionais que trabalham com idosos nos EUA. Gente que tem conhecimento comprovado a respeito da efetividade exponencialmente maior desse tipo de terapia em relação ao uso de medicamentos. Oliver Sacks (eterno S2) conta pra gente que, além da música, não há na ciência registro de outro estímulo sensorial que mobilize tantas partes do cérebro ao mesmo tempo. Nunca soube disso, mas sempre senti, PQ OLHA vou falar quantas vezes um DJ salvou a minha vida (eventualmente sendo o DJ eu mesma).

Por total coincidência, na semana passada estávamos eu e minha filha Ana fuçando nas gavetas da escrivaninha dela e o iPod Shuffle pulou de lá. Ela pegou a parada e disse “haha, vou colocar isso aqui no lixo”. Diante do meu olhar on fire, ela disse “ué, não serve pra mais nada?!?!?!?!”. Malditos millenials. Acho que foi pra ela e pra mim que escrevi este texto: esse iPod vai parar nas orelhas de algum velhinho necessitado e vai ser afudê.

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